Almeida Prado
1943 - 2010
O compositor paulista Almeida Prado prezava duas qualidades: a originalidade e a liberdade estética. Ele demorou alguns anos até encontrar sua própria voz no campo da composição. Quando foi laureado com o primeiro lugar do I Festival de Música da Guanabara, em 1969, e partiu para estudar no exterior, sua linguagem musical amadureceu.Até então, tinha absorvido lições nacionalistas de Camargo Guar…
O compositor paulista Almeida Prado prezava duas qualidades: a originalidade e a liberdade estética. Ele demorou alguns anos até encontrar sua própria voz no campo da composição. Quando foi laureado com o primeiro lugar do I Festival de Música da Guanabara, em 1969, e partiu para estudar no exterior, sua linguagem musical amadureceu.Até então, tinha absorvido lições nacionalistas de Camargo Guarnieri, seu professor oficial, e amostras da vanguarda internacional por meio de Gilberto Mendes, seu amigo e mentor informal. Essas duas correntes musicais eram consideradas antagônicas na época, e os adeptos de uma brigavam com os de outra. No entanto, Almeida Prado conseguiu transitar entre ambas. Dizia-se completamente livre para empregar na sua música elementos do nacionalismo, do atonalismo, do tonalismo e referências à ecologia, à religião e ao misticismo. No entanto, submetia todas essas fórmulas ecléticas à sua linguagem própria, fruto de sua capacidade criadora singular.Certa vez, a Universidade de Yale ofereceu ao alemão Paul Hindemith o posto de professor de composição, mas ele o recusou. A mesma instituição convidou-o, então, a ser professor de teoria musical, e ele aceitou. Perguntaram-lhe por quê. Ele respondeu que poderia lecionar teoria musical, mas ninguém além de Deus poderia ensinar composição. É uma filosofia idêntica à que pregava o compositor brasileiro José Antonio Resende de Almeida Prado, ou simplesmente Almeida Prado, nascido em Santos, São Paulo, em 1943. Ele costumava dizer que não ensinava seus alunos a compor, mas apenas lhes dava subsídios técnicos para serem aplicados a um dom já existente. Ao saber da história de Hindemith, ele expressava aprovação: "Ele tinha razão. Pode-se ensinar harmonia, mas composição é sempre um caminho único a ser trilhado. Cada um precisa achar o seu caminho. Quem compõe está sempre só".Almeida Prado não esteve sempre só. Ele dividia sua longa carreira em quatro estágios. O primeiro foi a fase nacionalista, que se estendeu dos 7 anos de idade, quando ele começou a compor imitando o estilo de Villa-Lobos, até o fim de sua educação com os mestres Mozart Camargo Guarnieri e Osvaldo Lacerda. Desse período, data, por exemplo, a sua "Missa da paz" (de 1965). Em 1969, teve início a fase que ele chama de "universalista", na qual também esteve em companhia (ou sob influência) de outros. Foi quando ele venceu o I Festival de Música da Guanabara com a composição "Pequenos funerais cantantes" e ganhou uma viagem à Europa. Na França, teve a chance de estudar com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen. Em Darmstadt, na Alemanha, fez breve contato com nomes importantes da vanguarda como György Ligeti, Karlheinz Stockhausen e Lukas Foss, tendo participado de aulas coletivas dos três. "O que mais me impressionou foi Ligeti, porque era um compositor marginal, que não seguia uma vertente ligada a algum grande nome", conta Prado ao Musica Brasilis. "Naquela época, era moda seguir Stockhausen e Pierre Boulez. Mas Ligeti não fazia isso, com seus microintervalos e seu tempo elástico".A terceira fase do brasileiro coincide com sua volta ao Brasil. "Finalmente, eu senti que estava pronto para andar sozinho, e então não tive mais aulas com ninguém", diz ele. A esse período, ele se refere como "fase ecológica e astronômica", por ter criado obras que aludem a animais, plantas e corpos celestes. A série pianística intitulada "Cartas celestes" é o exemplo mais relevante. Ele havia interrompido a sequência na 14ª carta, mas a retomou em novembro de 2009, dedicando a 15ª ao pianista Aleyson Scopel, após ter se deslumbrado com uma gravação dele de suas "Cartas celestes vol. 1". Desde então, já fez mais três. A 18ª e última foi inspirada no desfecho do romance "Macunaíma", quando o protagonista se lança ao céu e vira a Constelação de Ursa Maior. "Agora vou parar. Não há mais constelações que eu conheça para me inspirar", afirmava ele.A fase final de Almeida Prado é chamada de "pós-moderna". É marcada por um tonalismo livre, ou seja, por música baseada no sistema tonal, mas com a liberdade de incluir, aqui e ali, elementos alheios a esse universo. "Eu utilizo qualquer coisa que desejo", dizia Prado, que foi o autor de uma das obras mais delicadas e tonais que se ouviram na Bienal de Música Brasileira Contemporânea de 2009, as belas variações para piano "Caderno de Marina" e "Caderno de Gabriel", dedicadas aos seus dois netos. Autor de cerca de 600 obras musicais, de acordo com sua própria estimativa em 2010, ele continuava em atividade quando prematuramente faleceu, embora não compusesse diariamente. Durante as diferentes fases de sua carreira, Prado experimentou diversas técnicas e estéticas, desde quando se afastou um pouco de Camargo Guarnieri para descobrir mais sobre o serialismo e o dodecafonismo. Quem o guiou nessa jornada, empreendida pouco antes da viagem à França, foi o também santista Gilberto Mendes, a quem ele era grato: "Ele deu cores novas à minha paleta musical. Eu jantava em sua casa, e, depois, nós discutíamos música contemporânea". Camargo Guarnieri, embora tenha ficado um tanto melindrado, não reprovou a atitude do pupilo. "Ele escreveu cartas para Messiaen e para Nadia me apresentando. Portanto, não devia estar mais magoado comigo". Com seus alunos, Prado era igualmente generoso. "Eu posso não gostar do estilo de um aluno, mas se aquela for a personalidade musical dele, eu a aceito. Jamais imponho a minha personalidade", afirmava o compositor, que se dizia grande admirador de Beethoven, Mozart, Bach, Stravinsky, Debussy, Ravel e Messiaen.Eduardo Fradkin
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Nascimento: Brasil Santos
SP,
8/2/1943
Falecimento: Brasil São Paulo SP, 21/11/2010
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