Modinha: entre o erudito e o popular - por José Fernando Saroba Monteiro

Versão para download

A modinha está nas mais profundas raízes da música brasileira, responsável pelo lirismo romântico de nossas canções e pela docilidade, suavidade e amorosidade que encontramos em nossa música. Sempre, entretanto, a modinha transitou entre o erudito e o popular, ora tendendo para este, ora para aquele lado, e, em outros momentos, unindo esses dois polos em uma mesma canção.

A modinha nasce popular, em Portugal, originada no meio rural, inicialmente configurando a chamada moda portuguesa e logo chegando aos meios urbanos junto com aqueles que migravam do campo para as cidades, durante o século XVII. Segundo Rui Vieira Nery, “Na maioria dos países o acréscimo de população das cidades provinha em boa parte de um afluxo crescente de sectores do campesinato, e os novos citadinos mantinham ainda alguns traços culturais característicos dessa sua origem rural.”[1]. Desta forma, nos meios citadinos, a moda portuguesa dá seus primeiros passos à erudição, assumindo formas das canções literárias, da canzone italiana e das suítes, fugas e sonatas dos músicos alemães. Entretanto, nos alerta Rodney Gallop que “É certamente difícil dizer até que ponto as canções regionais e urbanas se entre-influenciaram, mas não há dúvida que tal intercâmbio existiu, existe [...]”[2].

            A moda portuguesa também seria levada para a colônia portuguesa da América, integrada ao processo migratório que levou um enorme contingente para o Brasil em busca do ouro e pedras preciosas da região mineradora, já em inícios do século XVIII. Neste contexto a moda portuguesa assume feições totalmente populares, e profanas. O jesuíta Nuno Marques Pereira, em seu Compendio Narrativo do Peregrino da America, com primeira edição de 1728, nos fala de músicas que ouviu na Bahia, tão alarmantes a ponto de ele exortar: “E que vos direy de ouvir musicas profanas? [...] que em nenhuma parte deviaõ ser ellas mais bem evitadas, e castigadas com duplicadas penas, que neste Estado do Brasil; pelo profano das modas, e mal soante dos conceitos.”[3]. A Bahia foi de fato o reduto inicial da moda portuguesa e possivelmente onde esta ganhou o diminutivo “modinha”, como nos sugere Vincenzo Cernicchiaro: “La ‘Modinha’ fioriva nella classica Bahia, ove, del resto, nacque e crebbe. [A ‘Modinha’ floresceu na clássica Bahia, onde, aliás, nasceu e foi criada.]”[4].

            A moda portuguesa também se espalhou para outras localidades como Rio de Janeiro e São Paulo, sempre atrelada as camadas mais populares, junto as quais terminou incorporando o lundu, praticado pelos negros da colônia, que seria responsável pela languidez que transformou a moda portuguesa em modinha brasileira. E foi assim, popular e lasciva que, a agora, modinha brasileira, foi para Portugal, onde conquistaria a corte e a sociedade portuguesa setecentista.

            A modinha brasileira chega a Portugal através de Domingos Caldas Barbosa, mulato filho de pai português e mãe angolana que conheceu tanto a modinha quanto o lundu durante a sua juventude, passada no Rio de Janeiro, onde também desenvolveu seus dotes de improvisador[5], sempre às voltas com “invenctivas de mao gosto” [6], que o levaram inclusive ao desterro para a Colônia do Sacramento, onde lutou na defesa daquele território. Caldas Barbosa indo para Portugal, estudar leis e cânones na Universidade de Coimbra, levou consigo a modinha brasileira, que apresentou e difundiu durante os reinados de D. José I e D. Maria I, fazendo-a apreciada pela corte e causando o deleite das açafatas do palácio.

É por esse período que a modinha brasileira chega ao auge de sua erudição, quando incorpora a ópera italiana, que lhe atribuiria formas de uma verdadeira ária de corte, e na qual perderia, quase ou totalmente, suas características próprias. Talvez, por este último aspecto, essa fusão não tivesse agradado a todos. O viajante inglês William Kinsey, que também nos chama a atenção para o fato de a modinha ser considerada uma música nacional portuguesa, chega a sugerir que “It would be well if the Portuguese confined themselves to their native harmony, instead of attempting the Italian style [Seria bom se os portugueses se confinassem a sua harmonia nativa, ao invés de tentar o estilo italiano]”[7]. E o português César das Neves foi ainda mais longe, afirmando que “[...] muitas modinhas tiveram grande voga pela sua originalidade; mas a maior parte não passavam de desastradas imitações das arias de Mozart, Beethoven, Cimarosa, etc., pretenciosamente sobrecarregadas de volatas, grupetos, trillos, e todos os artifícios de agilidade vocal, que tornava ridícula esta musica.”[8]. Todavia, acredita-se que a modinha é em grande parte responsável pelo surgimento de uma ópera portuguesa e os compositores de modinhas em Portugal eram todos de grande erudição, ou de ópera ou sacros.

Mas o sucesso da modinha era tanto, que entre 1792 e 1796 o gênero ganhou até mesmo um jornal especializado, o Jornal de Modinhas, com o qual contribuíram também músicos estrangeiros, franceses, italianos e ingleses, levando a modinha a ter edições também no estrangeiro, especialmente francesas.

O sucesso da modinha, no entanto, não se restringiu as camadas altas portuguesas. De acordo com Manuel Morais: “A prática da modinha, [...] percorre todos os grupos sociais, desde a nobreza, a burguesia e o clero (tanto monástico como secular) chegando o seu uso à criadagem e aos assalariados urbanos. [...] Ela foi usada, abusada e adulterada, por todas as classes sociais portuguesas, descendo até às mais baixas por mimetismo.”[9].

Talvez esse uso e abuso da modinha, levou-a a um gradativo desinteresse em Portugal, justamente no período em que a família real e a corte portuguesa se transferem para o Brasil, levando junto em suas embarcações a, agora erudita, modinha.

De volta ao Brasil, a modinha é inicialmente apreciada pelas elites, mas aos poucos vai ganhando o gosto de todos, terminando por se popularizar cada vez mais, como nos mostra Mozart de Araújo: “A modinha, ária de côrte, deixava aos poucos a luz dos candelabros, para se expandir sob o céu das noites enluaradas. E desprezava o contraponto do cravo, pelo contracanto dos baixos melódicos dos violões seresteiros.”[10].

            Ferdinand Denis, escritor e historiador francês, que esteve no Brasil em finais da primeira década do século XIX, chega a atribuir um cariz unicamente popular as modinhas do Brasil, contrastando-as inclusive com a erudição da obra de Rossini, muito apreciada nesse período. Segundo ele:

 “La musique [dans le Brésil] est cultiveé dans tous les états, ou plutôt elle fait partie de l’existence chez le peuple, qui charme ses loisirs en chantant, et qui oublie même les soins d’un pénible travail toutes le fois qu’il entend les simples accords d’une guitare ou d’une mandoline. Tandis que la musique de Rossini est admirée dans les salons, parce qu’elle est chantée avec une expression qu’on ne rencontre pas toujours en Europe, les simples artisans parcourent les rues vers le soir en répétant ces touchantes modinhas, qu’il est impossible d’écouter sans en être vivement ému; presque toujours elles servent à peindre les rêveries de l’amour, ses chagrins ou son espoir; les paroles sont simples, les accords répétés d’une manière assez monotone; mais il y a quelquefois tant de charme dans leur melodie, et quelquefois aussi tant d’originalité, que l’Européen nouvellement arrivé ne peut se lasser de les écouter, et cançoit l’indolence mélancolique de ces bons citadins qui écoutent pendant des heures entières les mêmes airs. [A música [no Brasil] é cultivada por todos os estratos, ou melhor, ela faz parte da existência do povo, que dá encanto aos seus tempos livres cantando e que se esquece mesmo dos cuidados de um trabalho penoso todas as vezes que ouve os simples acordes de uma viola ou de um bandolim. Enquanto a música de Rossini é admirada nos salões, porque é cantada com uma expressão que nem sempre se encontra na Europa, os simples artesãos percorrem as ruas até a noite repetindo estas encantadoras modinhas, que é impossível de ouvir sem ser vivamente comovido; quase sempre servem para pintar os devaneios do amor, as suas penas ou a sua esperança; as palavras são simples, os acordes repetitivos de uma maneira bastante monótona; mas há, por vezes, um encanto em sua melodia, e por vezes uma tamanha originalidade, que o europeu recém chegado não pode cansar-se de as ouvir, e compreende a indolência melancólica desses bons cidadãos que ouvem durante horas seguidas as mesmas canções.]”[11].

            Todavia, a modinha brasileira é incorporada tanto por músicos populares quanto por músicos eruditos, nacionais e estrangeiros. Joaquim Manoel da Câmara, nem sequer sabia ler partitura, mas teve suas modinhas encontradas na Biblioteca Nacional de Paris, para onde foram levadas por Sigismund Neukomm[12], discípulo de Michel e Joseph Haydn, que chegou a dar aulas de piano para D. Pedro I, outro grande apreciador de modinhas.

            No início do século XX a modinha se populariza ainda mais, auxiliada pelo advento dos fonogramas que levaram os discos ao interior dos lares e com eles as modinhas e os cantores e compositores deste gênero. Foram ainda, muitas as publicações que incluíram ou mesmo que levavam a modinha no nome. Outras, no entanto, embora tivessem o nome “modinha” no título, não apresentavam sequer uma canção do gênero. A modinha, que chegou a se confundir com o lundu e com a ópera, vai agora se diluindo na rítmica da valsa e aos poucos foi se dirimindo totalmente, depois de cerca de dois séculos de existência.



[1] NERY, Rui V.; MORAIS, Manuel. Modinhas, Lunduns e Cançonetas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000, p. 10.

[2] GALLOP, Rodney. Cantares do Povo Português. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1937, p. 17.

[3] PEREIRA, Nuno Marques. Compendio Narrativo do Peregrino da America. Lisboa: Officina de Manoel Fernandes da Costa, 1728, pp. 227-228.

[4] CERNICCHIARO, Vincenzo. Storia dela musica nell brasile: Dai tempi coliniali sino ao nostri giorni (1549-1925). Milano: Stab. Tip. Edit. Fratelli Riccioni, 1926, p. 55.

[5] TINHORÃO, José R.. Domingos Caldas Barbosa: O poeta da viola, da modinha e do lundu. São Paulo: Editora 34, 2004.

[6] VARNHAGEN, Francisco A. de. Domingos Caldas Barboza. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – RIHGB, Tomo XIV, 1851, pp. 449-460, p. 449.

[7] KINSEY, William. Portugal Illustrated: In a series of letters. London: Treuttel, Würtz, and Richter, Soho Square, 1828, p. 68.

[8] NEVES, Cesar das; CAMPOS, Gualdino de. Cancioneiro de musicas populares. vol. II. Porto: Typ. Occidental, 1893, p. XV.

[9] BARBOSA, Domingos Caldas; MORAIS, Manuel. Muzica Escolhida da Viola de Lereno (1799). Estudo introdutório e revisão de Manuel Morais. Lisboa: Estar, 2003, pp. 82-84.

[10] ARAÚJO, Mozart de. A modinha e o lundu no século XVIII: Uma pesquisa histórica e bibliográfica. São Paulo: Ricordi, 1963, p. 12.

[11] DENIS, Ferdinand. Résumè de l’histoire littéraire du Portugal, suivi du résumé de l’histoire littéraire du Brésil. Paris: Lecointe & Durey, 1826, pp. 581-582.

[12] ARAÚJO, Mozart. Sigismund Neukomm: Um músico austríaco no Brasil. Revista Brasileira de Cultura, ano 1, nº 1, jul./set. 1969.