Início do conteúdo

A música sacra na Filarmônica Nossa Senhora da Conceição de Itabaiana (SE)

10/12/2018 - Thais Rabelo e Edite Rocha

Resumo: O presente artigo apresenta um breve panorama sobre a origem da filarmônica N. Sra. da Conceição, de Itabaiana, bem como um primeiro levantamento do repertório sacro pertencente ao acervo da banda. Ainda em sua fase exploratória e tendo como método a pesquisa no arquivo da atual filarmônica, levantamento de fontes musicais e a pesquisa bibliográfica, esse estudo apontou aspectos relevantes para a memória musical da cidade, como uma produção voltada para orquestra sacra e manuscritos cujas características estilísticas remetem à música sacra produzida no Brasil em meados do século XVIII.

Palavras-chave: Orquestra Sacra; Música Sacra; Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.

1. Intróito

Com o intuito de contribuir para com o registro e a memória musical da filarmônica Nossa Senhora da Conceição, neste artigo nos propomos em apresentar um breve panorama histórico da referida filarmônica, sediada na cidade de Itabaiana (SE), bem como elencar informações acerca do levantamento dos manuscritos de música sacra pertencentes ao arquivo da banda. Localizada na cidade de Itabaiana, região agreste do estado de Sergipe, a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição (FNSC) é uma instituição com importante ação promotora da cultura musical no estado. Para além das atividades da orquestra, a FNSC também desenvolve programas voltados à formação musical de crianças e jovens na região. A filarmônica está sob direção do maestro Valtênio Souza1. A sua origem remete ao século XVIII. De acordo com a página virtual da própria filarmônica, a mesma surgiu como orquestra sacra, ainda em 1745, tendo sido criado pelo padre Francisco da Silva Lôbo (1700?-1768?), com a finalidade de participar dos serviços religiosos da cidade (litúrgicos ou paralitúrgicos)2.

A instituição conta hoje com um relevante arquivo musical, sediado no Instituto de Música “Maestro João de Matos”, onde também acontecem os ensaios e as aulas de vários programas que foram se originando a partir da filarmônica, como a banda jovem e a orquestra preparatória. Em visita técnica ao arquivo foi possível consultar alguns manuscritos que já se encontram seguindo uma espécie de organização, embora ainda não haja uma inventariação dos mesmos. O processo de inventariação está previsto no âmbito dessa pesquisa. Ainda não é possível mensurar o volume documental, uma vez que não tivemos acesso a ele integralmente.

2. Colecta: notícias do padre Francisco da Silva Lobo

Em relação à orquestra sacra de Itabaiana e seu fundador, sabemos que foi o padre Francisco S. Lobo, português, natural de Coimbra, quem criou a orquestra, no mesmo ano em que assumiu a função de pároco na igreja matriz de “Santo Antônio e Almas”, em 1745 (LIBERATO, 2007, p. 1).  Não há muito levantado sobre a vida de Francisco da Silva Lobo. Porém, há que se destacar os Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, publicados no ano de 1909, nos quais consta o documento “Noticia sobre a Freguezia de Santo Antonio e Almas da Villa do Itabayana”, escrito pelo Vigario Francisco da Silva Lobo” (1757). Por meio desse documento o padre se voltava para o rei de Portugal, na época D. José I, apresentando um panorama dos domínios territoriais da Matriz, bem como características geográficas do terreno, conforme se lê: “Está esta Matriz de Sancto Antonio e Almas da Villa da Itabayana sita em hua planície cercada ao longe de serras, á maneira de hu O, e a mayor parte do povo habita de serras para dentro. Tem da ambito da serra do nascente ao poente tres legoas e meya, e de norte a sul sete e oito legoas” (1909, p. 227). O último parágrafo consiste em uma queixa e um apelo ao monarca.

Hé o lugar da Villa e Matriz de poucos moradores, por ser aridissimo, e tão falto de agoas, que as não há senão no inverno, razão porque se faz digno de que S. Magestade seja servido de o mandar prover de algua cisterna ou agoada de pedra e cal para remédio dos Parochos, e dos poucos moradores que nelle habitão, o povo, que vem ás festas, missoens, e semanas sanctas, e mais funções da matriz e villa, pois só no inverno tem agoa em hu buraco chamado pedreira, que dura pouco tempo pelo verão valendo-se os da villa, e mais povo que vem ás festas e funcçoens da villa das cacimbas das serras, distantes da Matriz hua legoa grande (LOBO, 1909, p. 227).

Graças a essas notícias dirigidas à coroa portuguesa, é possível observar a atitude dinâmica do padre Francisco S. Lobo, que também nos concede conhecer alguns dos principais eventos da cidade, para os quais acorriam diversas pessoas, como as missões e as celebrações da semana santa. O documento também expressa a precariedade em que vivia aquela pequena comunidade da vila de Santo Antônio e Almas, em meados dos setecentos. Há ainda outro documento que evidencia as inciativas do pároco para desenvolvimento da vila. Trata-se da carta enviada no ano de 1761 à coroa, na qual Francisco da Silva Lobo solicita esmola ao rei para a reforma da igreja matriz (LOBO, 1761, Arquivo Histórico Ultramarino). Nas palavras de Sebrão Sobrinho, Francisco da Silva Lobo foi “sacerdote ilustre e inteligente, entusiasta e progressista, quase doutor, licenciado coimbrense [...] que se deu de coração ao progresso do curral e do redil que lhe foram confiados” (1956, p. 6). O paroquiato do padre Francisco estendeu-se de 1745 até 1768.

Ainda, segundo Sebrão Sobrinho:

O vigário Lôbo, na medida de suas possibilidades, muito trabalhou por Itabaiana, havendo sido seu primeiro cronista e, naturalmente auxiliado por seus fregueses, fundou uma orquestra afim de acompanhar os atos religiosos, datando dêsse tempo  arte musical em Itabaiana ou, mais precisamente, com a música sacra, a FILARMONICA em Itabaiana, sendo seu primeiro mestre ou regente o próprio vigário, que foi substituído por seu sobrinho, o licenciado Vito Manuel de Jesus e Vasconcelos, que foi sucedido por seu neto Francisco Manuel Teixeira, que teve substituto em o futuro tenente Samuel Pereira de Almeida, que a dotou de pancadaria tornando-a marcial, com a denominação de – “Philarmônicca Euphrosina”, em 1879, depois de mais de um século de tradições brilhantes (SEBRAO SOBRINHO, 1956, p. 6).

Assim, deve-se ao padre Francisco a criação da única orquestra sacra de que se tem notícia em Sergipe, no período dos setecentos. Essa orquestra viria a suscitar um apreço pela arte musical, característico na cidade, que se mantém vivo até os dias hoje. Em 1897 a “Philarmônica Euphrosina” passaria a ser chamada “Philarmônica Nossa Senhora da Conceição”. A figura 1 apresenta a referida orquestra já sob regência do maestro Francisco Alves Junior, no final do século XIX (o maestro foi um dos idealizadores do novo título da filarmônica). Francisco é o terceiro da primeira fila, com indicação. A figura 2 também mostra a filarmônica já com formação de banda de música.

 

                                                    

Fig.1: Filarmônica N. Sra. da Conceição de Itabaiana (Foto: Eduardo Cabral)3                        Fig.2: Filarmônica N. Sra. da Conceição. Fonte: LIBERATO, João (2007).

 

A pesquisa de João Liberato (2007) estudou a relação da filarmônica Nossa Senhora da Conceição, já em seu caráter de banda de música, e sua relação com a banda Santo Antônio, que dividia com a anterior, o “espaço cultural” na cidade. O estudo mostrou forte competição entre as duas bandas e a relação dessas disputas com a situação política da região. O período por ele abarcado está entre 1898 a 1915. Neste período a atuação da então filarmônica N. Sra. da Conceição, antiga orquestra sacra do padre Francisco da Silva Lobo, já não se limitava aos serviços musicais sacros. Segundo o autor, para além dos eventos religiosos, a filarmônica tocava em bailes, eventos cívicos da cidade, comemorações e protestos. As duas bandas de música concentravam a principal atividade cultural da cidade, que, de localização pouco acessível à época, ficava privada de modalidades como teatros, cinemas, dentre outras (LIBERATO, 2007, p. 27).

3. Communio

As fontes musicais apresentadas neste artigo consistem em manuscritos, todos referentes ao contexto musical sacro. Apesar da origem da orquestra datar de 1745, no levantamento musicográfico realizado não foi encontrado até o momento nenhum manuscrito anterior ao século XIX.  No entanto, considerando a atuação do grupo no século XVIII, não se deve ignorar a possibilidade de haver, dentre os manuscritos aqui abordados, composições deste período, que vieram a ser copiadas posteriormente. Sobretudo se considerarmos a hipótese levantada por Régis Duprat (2012). De acordo com o mencionado musicólogo, a mudança nos sistema de notação musical poderia ter contribuído para com o desaparecimento dos manuscritos musicais brasileiros anteriores ao último quartel do século XVIII. Assim, uma vez que o sistema de notação adotado teria se modificado, os manuscritos poderiam ter sido copiados já na nova notação vigente, com vista a adequar-se as novas práticas (DUPRAT, 2012, p. 294). Um levantamento e inventariação de todo o acervo permitirá uma análise das fontes mais cuidadosa, deve ser ainda realizado, bem como uma análise cuidadosa das fontes, a fim de compreender com maior propriedade as características dessas fontes4.

Os documentos musicais consultados estão organizados em vinte e seis conjuntos de cópias, todas manuscritas. Uma das pastas contém manuscritos diversos, e dos quais foi possível já fotografamos vinte e dois conjuntos. Os documentos levantados estão acondicionados em um armário de madeira, embutido na parede. Encontram-se envolvidos em envelopes de papel kraft. Segundo nos fora informado, já existe uma organização em termos de gênero musical, compositores e ordem alfabética. Até o momento observamos uma separação entre repertório sacro e profano. No referido armário constavam duas pilhas de documentos, uma referente à música sacra e outra ao repertório tradicional de banda de música. Não foram encontradas grades, mas guias de regência, eventualmente. A necessidade de uma intervenção de cariz arquivístico e musicológico é clara, visando, principalmente, a preservação dos manuscritos e, consequentemente, parte mais que relevante da memória musical da cidade.

Para uma melhor visualização elaboramos uma tabela onde consta título da obra, compositor/arranjador, copista, número de partes e data (ver tab. 1).

          

          

          

                     Tabela 1: Listagem do conjunto de músicas sacras da FNSC

Uma análise preliminar dos manuscritos nos permitiu destacar alguns aspectos: a presença de instrumentos de cordas como violinos em boa parte das obras, não característicos em bandas de música, e ausentes nos registros iconográficos da época da banda, remete à atividade do grupo enquanto orquestra sacra; e a formação de coro a quatro vozes, baixo e dois violinos ficou evidente, principalmente nas obras referentes ao tríduo pascal. A partir dessas evidências é possível conjecturar que esse repertório seja reminiscente da orquestra sacra, e que as partes de instrumentos de sopro característicos de bandas de música possam ter sido acrescentados depois, ou serem decorrentes de arranjos posteriores, o que demandaria um estudo mais aprofundado das fontes em questão.

 Quanto à escrita musical, nos chamou a atenção os manuscritos de “Domingo de Ramos”. Nesse conjunto identificamos quatro cópias (caligrafias) distintas. Uma das cópias, em particular, na qual não consta nome de copista, apresenta grafia musical em estilo antigo. As evidencias se apresentam na parte de tenor, em um manuscrito singular (cópia A). As partes de Soprano, Contralto e Baixo apresentam outras caligrafias.  Na parte de tenor observamos notas longas que incluem também figuras de breve, como que em caráter de recitativo. Além disso, há uma ideia de sistema de claves baixas, já estudadas por Paulo Castagna (2002). As cópias com as vozes de Alto e Baixo estão escritas nas claves de dó na quarta linha e de fá na quarta linha, respectivamente.  Mais detalhes sobre a parte de tenor podem ser apontados a figura a seguir (ver Fig. 3):

 

Fig. 3: Domingo de Ramos manuscrito. Fonte: Acervo musical da Filarmônica N. Sra. da Conceição de Itabaiana, 2017.

Foi possível identificar apenas cinco compositores, dentre os vinte e dois conjuntos fotografados, a saber: Lima - acreditamos tratar-se de Jerônimo Francisco de Lima (Portugal 1743-1822), Bathaman, Colás – Francisco Libanio de Colás (1830?-1885), J. A. Pereira Leite e Pádua. Dentre os copistas destaca-se Antônio Silva, cujas cópias datam da década de 1920, 1940 e 1950. Ainda neste contexto, destacamos a ausência de autoria na maioria das obras, o que pode corroborar com a hipótese de que essas cópias são referentes a composições bem mais anteriores.

4. “Ite missa est

A analogia com o fim da missa é meramente relativa ao término deste artigo. Certamente muito ainda se tem que estudar a respeito do acervo musical da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição de Itabaiana. Aqui foi possível levantar informações a respeito da origem da instituição e seu caráter sacro, em princípio, bem como apresentar um breve panorama de parte do acervo relativo ao repertório sacro. Apesar disso, já foi possível suscitar hipóteses instigantes que motivam estudos mais aprofundados, principalmente quanto às características estilísticas desse repertório e de sua escrita musical.

O famoso slogan de “instituição musical mais antiga do Brasil”, muito mencionado na região é, na verdade, ínfimo se comparado com as questões que envolvem a história da filarmônica e seu acervo. Estamos certos de que da ação do padre Francisco da Silva Lôbo, em criar a orquestra sacra, tem-se gerado muitos frutos ao longo da história, e que hoje se mostram em uma sociedade que preserva a arte musical e a incentiva fortemente. Esses frutos também se apresentam na riqueza do acervo musical da filarmônica que, mediante a cooperação de seus responsáveis e do interesse musicológico, muito tem a dizer, não somente sobre a história musical de Itabaiana a nível regional, mas sobre o passado musical de Sergipe para a musicologia brasileira.

Referências

CASTAGNA, Paulo. As claves altas na prática musical religiosa paulista e mineira dos séculos XVIII e XIX.  Per Musi. Belo Horizonte, v.3, 2002. p. 27-42.

CASTAGNA, Paulo. A notação proporcional em manuscritos musicais brasileiros do século XVIII. Resonancias, Santiago de Chile, n.15, p.97-119, nov. 2004.

DUPRAT, Regis. A Música Sacra no Brasil Colonial: uma reflexão ontológico-hermenêutica. Revista Brasileira de Música, Rio de Janeiro, v. 25, n. 2, p. 287-298, Jul./Dez, 2012.

LIBERATO, João Riso Souza Mattos. Filarmônica Nossa Senhora da Conceição: funções de uma banda de música no Agreste Sergipano no período entre 1898 e 1915. Salvador, 2007. 140f. Dissertação (Mestrado em Música) - Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2007.

LOBO, Francisco da Silva. Noticia sobre a Freguezia de Santo Antonio e Almas da Villa da Itabayana". Anaes da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro - 1909. v. 31. In: Inventário dos documentos relativos ao Brasil existentes no Archivo da Marinha e Ultramar organizado por Eduardo de Castro e Almeida. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1913. p. 227

_________. Carta do pároco da Freguesia de Itabaiana solicitando uma esmola para a obra da Igreja Matriz da mesma vila em 12/09/1761. Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa). Caixa 07, Doc. 60. Inventariado pelo Projeto Rio Branco sob o número 415, Caixa 05. Edição paleográfica: Wanderlei Menezes.

SEBRÃO SOBRINHO. Filarmônica Nossa Senhora da Conceição: a mais antiga instituição musical do Brasil, fundada no século XVIII. Itabaiana: Prefeitura Municipal de Itabaiana, 1956.


 

1. Agradeço à direção da orquestra na pessoa do maestro Profº. Valtênio Souza e do Dr. Rômulo de Oliveira Silva pela cooperação para com esta pesquisa.

2. In: <https://www.filarmonicansc.art.br/>. Acesso em 30 março de 2018.

3. Em "Sergipe em fotos". Disponível em: https://sergipeemfotos.blogspot.com.br/2013/04/filarmonica-nossasenhora-da-conceicao.html. Acesso em 30 de março de 2018.

4. O levantamento e inventariação do acervo da filarmônica N. Sra. da Conceição está sendo realizado através do apoio do projeto Musica Brasilis, sob coordenação da Drª. Rosana Lanzelotte.