Um boi brasileiro no telhado francês

A música brasileira deve sua riqueza e diversidade aos cruzamentos de influências. O caldeirão começa a ferver no início do século 20, quando as fronteiras entre os gêneros clássico e popular se tornam mais fluidas.

Há exatos 100 anos, em 1917, em pleno carnaval do primeiro samba gravado – Pelo Telefone -, chega ao Brasil o compositor francês Darius Milhaud (1892-1974), como secretário de Paul Claudel. Surpreso e maravilhado com o que ouviu, escreveu sobre Ernesto Nazareth: “Seu jogo fluido, desconcertante e triste ajudou-me a compreender melhor a alma brasileira". Intrigava-o o “pequeno nada” (“petit rien”) que revestia a música brasileira de uma ginga quase que intraduzível em notação musical.

Surge no carnaval de 1918 O Boi no Telhado, composição de José Monteiro, o Zé Boiadero, que, ao lado de muitas outras partituras, Milhaud leva na bagagem quando retorna à França em 1919. Sua obra Le Boeuf sur le toit estreia na Comédie des Champs Elysées em 1920, quando os franceses puderam ouvir, sem o saber, 24 peças de músicos brasileiros. De Ernesto Nazareth, Milhaud utilizou “Apanhei-te Cavaquinho”, “Carioca”, “Escovado” e “Ferramenta”. De Chiquinha, incorporou “Gaúcho”, de Álvaro Sandim, a “Flor do abacate”, de Marcelo Tupinambá, “São Paulo Futuro”, “Matuto”, “Tristeza do Caboclo” e de Alberto Nepomuceno, “A Galhofeira”.

O sucesso da obra inspira a criação do restaurante “Le boeuf sur le toit”, onde músicos e escritores se reuniam informalmente para tocar. Existente até hoje em Paris, o restaurante está na origem da expressão “faire le boeuf”, que significa “dar uma canja”.