O Sublime e o Sagrado

19/11/2010

"Eu não sabia que era tão bonito.”

Esse é o comentário de um morador de Rocha Miranda que, pela primeira vez, assistiu a um concerto gratuito em igreja. Jovens de comunidades correm atrás de projetos onde podem aprender a tocar o violino ou o violoncelo. Quem disse que música clássica é só para a elite?

Na Venezuela, o "Sistema", criado em 1975 pelo maestro e compositor José de Abreu, ensina a 250 000 jovens moradores de favelas a tocar em orquestras. Um ícone do projeto, o genial Gustavo Dudamel tornou-se o maestro titular da Orquestra Sinfônica de Los Angeles. Empunhando seu violino, o garoto venezuelano tem consciência de que fazer parte de uma orquestra salvou-o dos grupos ligados à droga:

 "Aqui, a gente vai fundo e vai em frente, que nem os elefantes."

A mãe de duas crianças conta com orgulho como eles "lutam com notas" contra uma realidade que ameaça.

"A orquestra, diz ela, nos oferece uma evasão para um mundo mágico onde a violência não existirá nunca mais."

No Rio de Janeiro, a única escola oficial que oferece ensino gratuito de música a jovens é a Escola de Música Villa-Lobos. Com quatro núcleos espalhados por todo o estado, a Escola tem mais de 3000 alunos matriculados. As vagas são disputadíssimas a cada ano.

Projetos não governamentais inspirados no modelo da Venezuela, atuam na Rocinha, Dona Marta e Mangueira. A Escola de Música da Rocinha é frequentada por 400 jovens da comunidade, que podem escolher entre Flauta, Clarinete, Saxofone, Trompete, Trombone, Violino ou Violoncelo. No morro Santa Marta, a Ação Social pela Música ensina instrumentos de corda e flauta a 110 crianças e adolescentes. O projeto social "Com a Corda Toda", dirigido por Suray Soren, ensina violino pelo método Suzuki a 70 crianças e adolescentes de várias comunidades. O Maestro Leonardo Sá coordena a Orquestra de Violinos do Centro Cultural Cartola, patrocinada pela Petrobras, na Mangueira, e da Orquestra Infantil Maestro José Siqueira, patrocinada pela Light, onde 120 jovens aprendem a tocar instrumentos de orquestra.

O violinista de 14 anos, Nathan do Amaral é cria do projeto do Centro Cultural Cartola na Mangueira:

"Sempre fui uma criança um pouco diferente das outras, não era bom em futebol ... Um rapaz que morava perto da minha casa e que trabalhava no Centro Cultural Cartola, e me ouvia estudando num tecladinho velho, convidou-me para fazer parte de um novo projeto, com violinos, que acabara de ser criado no Cartola. Eu estranhei, porque achava que violino era coisa para meninas, ainda mais porque, para os vizinhos, para ser homem tinha que ser jogador de futebol."

O que jovens como ele buscam? A integração em uma orquestra promove uma mudança radical em suas vidas, a prática de grupo, a descoberta da música sublime. Apesar do preconceito que o cercava, Nathan perseverou.

O mesmo preconceito faz cair no esquecimento uma parte importante da cultura brasileira: a música de concerto. Essa não tem vez no Museu da Imagem do Som nem no Instituto Moreira Salles, que recusam-se a receber doações de partituras. Com raras exceções, não há edições, o que impede a música de ser tocada, de ser gravada, e, portanto, de circular. Quem ouviu falar de Villani-Côrtes, Luciano Gallet, Glauco Velasquez, Luís Álvares Pinto, Maria Helena Rosas Fernandes, Dimitri Cervo e tantos outros ? Compositores excepcionais, não tiveram a sorte de Villa-Lobos, de ser editado na França, onde morou subsidiado pelo governo. A obra de Villani-Côrtes, que completa 80 anos em novembro, é muito apreciada, pelo estilo que mistura elementos da música clássica universal aos da música popular urbana. Mas as edições são raras, o que impede a circulação.

O Portal Musica Brasilis pretende dar visibilidade à produção dos grandes compositores clássicos nacionais, tanto para o público em geral quanto para os instrumentistas, para que nomes como o de Villani-Côrtes - que já tem as partituras de oito de suas composições registradas no portal - sejam cada vez mais conhecidos.

Já o Música nas Igrejas está na outra ponta do processo, incentivando o público a consumir mais desse gênero musical, em apresentações gratuitas no espaço mais democrático e de melhor qualidade acústica que o ambiente urbano possui, que é o templo religioso. Atuando há 17 anos nas igrejas históricas do Centro e em bairros distantes como Campo Grande, Marechal Hermes e Santa Cruz, o evento procura a maior visibilidade possível, trazendo nomes de destaque internacional e jovens talentos ao Rio de Janeiro e aproveitando datas importantes do calendário da cidade, unindo o sublime ao sagrado de maneira a atingir em cheio o coração do carioca.

Todo esse esforço de formação e divulgação, no entanto, encontra um obstáculo no pouco espaço que a grande mídia ainda oferece atualmente ao segmento. Nas emissoras de TV e rádio públicas, programas de boa qualidade têm se dedicado a divulgar a música clássica, mas há ainda um longo trabalho de (in)formação a ser realizado, no qual as grandes emissoras comerciais podem desempenhar um papel mais atuante. Não é necessário um programa semanal fixo, mas uma simples mudança de postura que coloque em xeque o perfil supostamente elitista desse gênero. Seria um primeiro passo, mas fundamental, para acelerar a caminhada pela difusão da música clássica no Brasil.

Rosana Lanzelotte, cravista